Bíblia Católica X Bíblia Protestante
Bíblia Católica X Bíblia Protestante
Jonas Dias de Souza[1]
É muito comum
presenciarmos disputas sobre tal ou tal Bíblia. Com ardor uns defendem a Bíblia
Católica, outros apaixonadamente defendem a Bíblia protestante. Fato é que na grande maioria das vezes nem
uma e nem outra tem a leitura que deveria. Desde minha adolescência escuto uma
brincadeira, que ilustra bem o fato de que as Bíblias não têm a leitura que
merecem. Trata-se de uma pergunta sobre qual a diferença da Bíblia católica e a
Bíblia Protestante. A resposta em tom de jocosidade é que uma cheira a mofo e
outra cheira a “cêcê” ou suor, numa alusão de que bíblias católicas enfeitam
estantes e escrivaninhas e bíblias protestantes enfeitam sovacos. O humor por
vezes tem um fundo de verdade, e a pilhéria serve para alertar sobre situações
sérias de uma forma sutil. Seria esta uma
disputa necessária?
Fará diferença esta
discussão que toma energia, tempo e na maioria se limita a um falatório. O que
afirmamos é que a energia consumida na defesa, muitas vezes é desprovida de uma
análise que leve em conta as doutrinas existentes nos chamados Livros Apócrifos
e em traduções livres.
O Novo Testamento é
idêntico em ambas as publicações no que concerne ao número de livros. O Antigo
Testamento possui na publicação católica alguns livros a mais. A Bíblia impressa e destinada ao público
católico possui 73 livros, ao passo que
a destinada ao público protestante possui 66 livros. Acrescente-se a esta
diferença os aditamentos em alguns livros da publicação católica. Para entender esta controvérsia é importante
entendermos o que é um Concílio. O vocábulo assume o significado principal de
tribunal. Confiram Marcos 13.9 na Almeida Revista e Corrigida (ARC).
“Os chamados livros apócrifos
foram acrescentados à Bíblia pela Igreja Católica em 8 de abril
de 1546 no Concílio de Trento (1545-1563). Trata-se do livro de Tobias, Judite, Sabedoria
de Salomão, Eclesiástico, Barucque, A Epístola de Jeremias, 1
e 2 Macabeus e acréscimos feitos
a Ester e a Daniel.”[2]
Segundo o Dicionário da
Bíblia de Almeida:
Apócrifos: Livros que o Concílio de Trento, em 1546,
declarou inspirados, embora não fizessem parte do Cânon do AT estabelecidos
pelos judeus da Palestina. Os católicos chamam esses livros de “deuterocanônicos’,
isto é, pertencente ao “segundo cânon”. “Protocanônicos” (pertencentes ao
primeiro cânon) são os livros do AT que os judeus da Palestina consideravam
inspirados, e esses são aceitos tanto pelos católicos como pelos evangélicos.
Os livros apócrifos aceitos pelos católicos são os seguintes: Tobias, Judite,
Sabedoria de Salomão, Eclesiástico ou Sirácida, Baruque, Epístola de Jeremias,
Primeiro e Segundo Macabeus e os acréscimos a Ester (Ester Grego) e a Daniel (A
oração de Azarias, A canção das três Jovens e as histórias de Suzana e de Bel e
do Dragão). Além desses existem outros livros que não são considerados
inspirados, os quais os evangélicos chamam de psuedoepígrafos, e os católicos
de “apócrifos”. (Zimmer)
O principio de que a Bíblia não contradiz a si mesma é
fundamental para que entendamos o motivo pelo qual os Teólogos Evangélicos tem
se posicionado de forma a refutar os livros deuterocanônicos.
Bem verdade que existem trechos edificantes nos
deuterocanônicos, contudo, eles devem ser lidos com muito cuidado, posto que haja
trechos que apóiem doutrinas com as quais os evangélicos não concordam. Reside
nisto o perigo de se estudar textos bíblicos isolados, fora de contexto, seja o
contexto imediato ou contexto remoto. Quando lemos “Ainda que morra prematuramente,
o justo encontrará repouso.” (Sabedoria 4.7) É possível encontrarmos
uma base neotestamentária (o juízo pessoal após a morte). “E, como aos homens está ordenado
morrerem uma vez, vindo depois disso, o juízo” (Hebreus 9.27)
Existem passagens que trazem ensino diverso da
doutrina neotestamentária, “Quando você e Sara rezavam, era eu quem
apresentava o memorial da súplica de vocês diante do Senhor Glorioso. A mesma
coisa eu fazia quando você sepultava os mortos.” (Tobias 12.12) Estas
palavras foram ditas a Tobias pelo anjo Rafael, que ainda completa “Eu
sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos para entrar na presença
do Senhor glorioso”. (Tobias 12.15). Em suas Instruções para a Igreja na Primeira
Carta a Timóteo. O apóstolo Paulo, ensinou que: “Porque há um só Deus e um só
mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem.” (1 Timóteo 2.5) A
única ponte de acesso, o único intermediário ou mediador entre Deus e o homem é
Jesus cristo. Sei que serão construídos argumentos que dirão que a passagem de
Tobias está no AT, mas não nos esqueçamos que o Romanismo encontra nos livros
Deuterocanônicos um forte apoio para sua crença. A oração dos santos não é
apresentada a Deus por sete anjos.
Lembremos
que em sua Carta aos Cristãos de Colossos, o apóstolo Paulo, com vistas a
prevenir a atuação dos falsos mestres naquela igreja ensinou: “Ninguém
vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto aos anjos,
metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal
compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado
pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.” (Colossenses
2.18-19). Para o argumento de que a passagem de Tobias está no AT, e
que não poderia ser confrontada com os ensinamentos de Paulo que é
neotestamentário, lembramos o que a Bíblia, (quer na versão católica ou
protestante), ensina no Antigo Testamento que não devemos prestar culto aos
anjos.
“Não terás
outros deuses diante de mim.”
“Não farás
para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus,
nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” (Êxodo 20.3-4) (ARC)
Na Bíblia Edição Pastoral (destinada ao Público
Católico) da Editora Paullus:
“Não tenha
outros deuses diante de mim”.
Não faça
para você ídolos, nenhuma representação daquilo que existe no céu e na terra,
ou nas águas que estão debaixo da terra.” (Êxodo 20.3-4)
Encontramos ainda doutrinas espúrias a respeito da
intercessão dos mortos pelos vivos, numa flagrante contradição: “Tendo armado cada um de seus soldados, não
tanto com a segurança oferecida pelos escudos e lanças, mas principalmente com
a força das boas palavras, Judas, ainda lhes contou um sonho digno de fé, uma
espécie de visão, que muito os alegrou. No sonho, ele viu o seguinte: Onias, o
antigo sumo sacerdote, homem correto e bom, respeitoso no encontro com as
pessoas, manso no comportamento, precavido e delicado no falar, e bem-educado
desde criança em todo o seu comportamento virtuoso, esse homem de mãos
erguidas, rezava em favor de toda a comunidade judaica. Da mesma forma,
apareceu outra personagem extraordinária pela sua velhice e dignidade, envolta
num clarão de majestade maravilhosa. Então Onias disse: “Este é o amigo dos
seus irmãos, que está sempre rezando muito pelo povo e pela cidade santa. É
Jeremias, o profeta de Deus.” (2 Macabeus 15.11-14) Os mortos não
intercedem pelos vivos e nem tampouco se comunicam. Aceitar que um morto (mesmo
sendo profeta) se comunicou e está intercedendo pelos vivos é ir de encontro ao
que a bíblia ensina a respeito deste assunto.
Existe uma passagem no livro de
Sabedoria que
confronta o conceito da Justificação. A justificação segundo alguns
estudiosos
da Bíblia é o ato de Deus como e enquanto Juiz que, por intermédio de
sua graça
dá o perdão aos seres humanos pelo
pecado. A base para este perdão está no sacrifício realizado no calvário
por
Jesus Cristo que cumpriu a lei no lugar dos homens e sofreu o castigo no
lugar
da humanidade. A justificação é alcançada pela Fé dada por Deus por
intermédio
do Espírito Santo, que convence da justiça, do pecado e do juízo. Outro
conceito de justificação é a aliança realizada por Deus baseada na Fé em
Cristo
Jesus, que nos coloca numa relação correta com Deus. O Espírito Santo é
que
mantém a justificação. Estes ensinamentos podem ser encontrados ao
longo das Cartas aos Romanos. A doutrina da justificação é contrariada
pela
passagem do livro de Eclesiástico que diz “Eu era um rapaz cheio de boas
qualidades; eu tinha recebido uma alma excelente, ou melhor eu era bom e entrei
num corpo perfeito.” (Sabedoria 8.19-20) Justo não é quem recebeu uma alma boa, mas
quem aceitou a Cristo como legítimo e suficiente e único salvador. Confrontemos
com o ensinamento de Paulo “Porque todos
pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente
pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.” (Romanos 3. 23-24)
Romanos possuem alguns conceitos importantes: Eleição,
Justificação, Propiciação, Redenção, Santificação e Glorificação. São todos
conceitos que não colocam nas obras o motivo da salvação, contudo, nos livros
de Tobias e Eclesiástico as boas obras são expiadoras de atos maus “A
esmola livra da morte e purifica de todo pecado. Os que dão esmola terão longa
vida, mas os que cometem o pecado e a injustiça são inimigos da própria vida”
(Tobias 12. 9-10). A expiação
dos pecados tem seu acontecimento no arrependimento e na confissão dos pecados,
seguido de reconciliação com Deus e não são as boas obras, a esmola e o
proceder correto que a propicia, mas através do sacrifício de uma vítima
inocente. Dentro do AT temos vários tipos de Cristo, que foi a vítima inocente
que propiciou a expiação do homem (de uma vez por todas) através de sua morte
na cruz. Colocar a purificação dos pecados como conseqüência das esmolas e
obras é invalidar o sacrifício vicário. Pratica-se a boa obra porque está salvo
e não para ser salvo. Confiram Hebreus 9.
Encontramos uma heresia que é a oração pelos pecados
dos mortos, cuja base pode ser lida no livro de 2 Macabeus: “Então encontraram debaixo da
túnica de cada morto objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, que a lei proíbe
aos judeus. Ficou assim claro para todos o motivo pelo qual haviam morrido.
Todos pois glorificaram a conduta do Senhor, justo juiz, que manifesta as
coisas ocultas, e puseram-se em oração, implorando que o pecado cometido fosse
completamente cancelado. E o nobre Judas exortou sua gente a se conservar sem
pecado. Depois, feita uma coleta de um tanto por pessoa, ajuntou cerca de duas
mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém, para mandar oferecer um
sacrifício pelo pecado, e realizou assim uma ação muito boa e nobre, pensando
na ressurreição; com efeito, se não esperasse que os mortos ressuscitariam,
teria sido coisa supérflua e vã rezar pelos defuntos. Mas se ele pensava na magnífica
recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade,
seu pensamento foi santo e piedoso. Por isso, mandou oferecer o sacrifício de
expiação pelos mortos, para que fossem absolvidos de seu pecado.” (2 Macabeus
12.40-45) Eis aí a base para o romanismo dizer que os que morrem na
graça de Deus podem ser libertados de pecados não expiados. Esta é a base da
doutrina católica sobre o purgatório e sobre o sufrágio pelas almas dos
mortos.
Uma
conclusão sobre a leitura ou não de tais livros cabe a cada leitor. Não podemos
ser dogmáticos extremistas a ponto de proibi-los ou modernos demais para
adotá-los em nossas liturgias, até mesmo porque se assim o fizermos, estaremos
abrindo caminho para heresias. Toda leitura deve vir antecedida e seguida de
oração para que o esclarecimento se dê pelo Espírito Santo. Obviamente este
estudo poderia ser mais profundo, mas esta plataforma não é mais adequada.
Concitamos aos leitores que procurem se aprofundar e conhecer melhor as várias
bíblias existentes no mercado. É fundamental escudar-se nos dois pilares da
vida Cristã que são a Oração e a Palavra. A freqüência aos cultos de ensino e a
Escola Bíblica Dominical também é fundamental para o crescimento espiritual.
Por fim resta concitar a uma melhoria ao hábito de leitura. A facilidade de
hoje permite encontrar bons livros e mais baratos que outrora, “leia a bíblia e
ore todo dia e vais crescer” diz a letra de um corinho. Se for a vontade de
Deus, continuaremos este assunto numa outra oportunidade.
Graça e Paz.
BIBLIOGRAFIA
Bíblia Sagrada de Aparecida [Livro]. - São
Paulo : Santuário, 2010.
Bíblia Sagrada Nova
Tradução na Linguagem de Hoje [Livro]. - São Paulo : Paullus, 2003.
Concordância Bíblica
Abreviada [Livro]. - São paulo : Vida, 2006.
CPAD Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal [Livro]. -
São Paulo : [s.n.], 2004.
CPAD Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego
[Livro]. - Rio de Janeiro/RJ : CPAD, 2011.
Zimmer Werner
Kaschel e Rudi Dicionário da Bíblia
de Almeida [Livro]. - [s.l.] : SBB.
[1]
Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões na cidade de São João
del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de Teologia da EETAD.
[2]
Disponível em: http://desafioscristao.blogspot.com.br/2011/04/os-livros-apocrifos-na-biblia-catolica.html
acesso em 03/02/2016


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