É POSSÍVEL UMA FILOSOFIA CRISTÃ? (Parte I)
É POSSÍVEL UMA FILOSOFIA
CRISTÃ? (Parte I)
Jonas Dias de Souza1
A Filosofia tem por tradição
trabalhar com os espinhos. Não há reflexão que não provoque um
sangramento na alma. Seja na nossa ou na do outro. Não há consenso
em termos de reflexão. Não encontrei até hoje dentro da filosofia
dois ou mais pensadores que concordassem em torno de qualquer tema.
Por isto é possível falar em sangramento. Quando discordamos
provocamos um corte em nós e no nosso interlocutor. O grande
problema é como será suportado este corte. Por sua vez a Palavra de
Deus também provoca corte que separa ossos e medula. De forma
simbólica este corte provoca muito mais sangramento do que os cortes
filosóficos. Pois trata da transformação de algo velho em novo.
Assim é quando resolvemos
discutir o problema da Filosofia dentro da Teologia Cristã. Qual das
duas será a melhor? Qual delas será a mais apropriada para
conversarmos? Será que é possível de fato uma separação entre
Filosofia e Teologia?
Quando estamos dentro de
reflexões teológicas estamos dissociados das reflexões
filosóficas?
É neste sentido que nos
propomos a refletir sobre a questão: É possível uma Filosofia
Cristã?
Quem estudou um pouco que seja
de filosofia, deparou com o MITO DA CAVERNA de Platão. Assim ocorre
com o Cristianismo. Não com as religiões. Mas com o Cristianismo.
Quando nos tornamos Cristãos, desejamos ardentemente libertar os
prisioneiros da caverna e direcioná-los para a luz brilhante. É
neste ponto que como filósofo temos que questionar: É possível
hoje um Cristianismo autêntico. Nestes milhares de anos que separa a
humanidade dos ensinamentos primordiais de Cristo, o que foi
implantado pela cultura que apagou o cerne do cristianismo? Em termos
filosóficos podemos dizer que não temos certeza do quanto de
cultura está impregnada os ensinamentos. Mas recorremos a Fé para
afirmar que a Palavra de Deus é imutável, e que ao longo deste
milênio ela permanece mostrando o verdadeiro caminho para o Cristão
que de fato se coloca sob a tutela do Espírito Santo. Por isto se
diz à luz da Bíblia que o crente se torna sal da terra e luz do
mundo.
Vamos seguir o seguinte caminho
para buscarmos uma resposta:
- O que é Filosofia?
- O que é Teologia?
- Qual o objeto de estudo de cada uma.
- Há possibilidade de um ramo do saber entrar na seara do outro?
O QUE É FILOSOFIA?
Quando decidi cursar filosofia
no final dos anos 90, eu carregava uma bagagem de perguntas, que não
conseguia responder pelos caminhos que eu andava. Carregava comigo
uma bagagem cultural de quem foi criado entre a Assembléia de Deus e
a Igreja Batista. Na primeira eu frequentava motivado por um tipo de
culto que me fascinava e que é denominado de pentecostal. Na minha
infância o louvor da Assembleia de Deus era aquele louvor em que a
igreja acompanhava ao som de palmas. Mas havia algo de rebelde em
mim, e as perguntas que eu fazia de certa forma incomodava os
professores. Na Igreja Batista eu encontrei um ensino que por um
tempo me deixou satisfeito, mas ainda assim eu revolvia-me em
pensamentos sobre as questões principais da vida. Que seriam
respondidas se naquela época a rebeldia não me fizesse trocar a
casa paterna, pela luzes do mundo. Numa alusão ao fato de que
abandonei o Cristianismo e juntei me aos Rosacruzes. Nesta busca por
respostas, eu apliquei mais o intelecto do que a Fé. Reconheço hoje
a necessidade de um equilíbrio. Equilíbrio este, que pode ser
alcançado somente através da ação do Espírito santo em Nossas
vidas. A letra mata. Isto é, a leitura da Bíblia despida da Fé na
Palavra de Deus, nos leva ao ceticismo. Posto que a ciência não
explicará jamais a abertura do Mar Vermelho ou a retirada da água
da rocha no deserto.
Muito embora cada pessoa traga
perguntas essenciais que são diferentes. Eu queria saber
principalmente sobre qual o destino do homem? O que me fazia pensar?
E se de fato Deus existia.
Pode parecer meio ateísmo, mas
estas questões, quando não respondidas de forma correta e clara,
faz o homem se perder. O resultado disto é que eu fui flertar com as
Ordens esotéricas. Até decidir pela Filosofia. Depois da Filosofia
eu entrei na Maçonaria.
E como não respondemos o que é
Filosofia, vamos fazê-lo, baseado no que entendemos ser a Filosofia
e no que alguns pensadores disseram ser a Filosofia.
A Filosofia é o ramo do saber
que se preocupa com o Conhecimento. Suas subdivisões incluem a
Epistemologia, a Gnosiologia, a Lógica, a Teoria do Conhecimento e
uma série de outras matérias, que enumerá-las é uma tarefa
gigante. Para se ter uma ideia até da Arte a Filosofia se ocupa.
Portanto delimitar o ramo de estudo da Filosofia não é fácil.
Ainda temos o uso cultural e equivocado que fazem do vocábulo e por
consequência da Filosofia no mundo atual: Por exemplo, se
determinado treinador de futebol tem um estilo marcante dizem que ele
adota tal ou tal filosofia. E por aí segue as “filosofias de
vida”. É inegável que a Filosofia enquanto sistema de construção
do conhecimento e do arcabouço teórico do movimento cultural da
humanidade é muito importante.
Infelizmente o que vemos é a
deificação de determinados escritores, aos quais determinados
“filósofos” se agarram e tentam perpetuar a linha de pensamento.
É sobremaneira difícil sair da tutela de pensadores e seguir o
exemplo Kantiano do Sapere Aude, (Alfklarung)2
. Alcançar a maioridade é algo doloroso de se fazer. O que se
aplica à Filosofia podemos fazê-lo na Teologia. O que temos hoje é
uma repetição de conceitos teológicos que enraizaram-se nos
púlpitos. Onde falta muito a pregação Cristocêntrica e sobeja a
ideia de Falsas Doutrinas.
A preguiça intelectual reinante
se aplica tanto na Filosofia quanto na Teologia. Posso concordar com
Ortega y Gasset, pelo menos no sentido de que o mundo que me circunda
me faz ler desta maneira. Teria a tecnologia nos tornado mais
preguiçosos mentais, a ponto de desejarmos mesmo que de forma
inconsciente perpetuarmo-nos numa menoridade, e recusarmo-nos a
pensar por nós mesmos.
Neste caso é possível fazer
com que Immanuel Kant concorde com o apóstolo Pedro e com os
escritos de Hebreus. Em Hebreus o escritor admira-se da falta de
crescimento de alguns crentes, o qual ele expressa assim: “Embora
a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém
que lhes ensine novamente os princípios elementares da Palavra de
Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido.”
(Hebreus 5: 12-13).
Kant afirma através de seus escritos que o homem deve alcançar sua
maior idade saindo da tutela de outras pessoas. O paradoxo disto é
quando nos submetemos à vontade de Deus, estamos saindo da tutela do
mundo e nos tornando responsáveis por nosso destino. Ousar usar o
nosso próprio entendimento é justamente o que prega o Evangelho.
Por mais difícil que possa ser para você leitor entender.
O Evangelho que escraviza, que
pede trízimos e que expropria as ovelhas não é o Evangelho de
Cristo. Este Pseudo-evangelho que procura escravizar o homem e
mantê-lo preso em sua menoridade, é aquele feito por homens
interessados somente na lã das ovelhas. Uma questão essencial que
temos a entender é questão do escravo. Assim como o escravo fica a
mercê das vontades de seu Senhor, o homem que é escravo do pecado,
fica a mercê de seu dono que é o príncipe do mundo. Antevendo
argumentos no sentido de que o crente perde sua liberdade, digo que é
justamente o contrário.
Vejamos o significado da palavra
doulos.
ESCRAVO
doulos derivado de deo,
“amarrar”, “escravo”, sendo originalmente o termo
mais baixo na
escala da escravidão, também veio a significar “aquele que se da
a vontade de outrem” (por exemplo, 1 Co 7.23; Rm 6.17,20), e se
tornou a palavra mais comum e geral para indicar “criado”, como
em Mt 8.9, sem qualquer idéia de escravidão. Porem, ao se chamar
“escravo de Jesus Cristo” (por exemplo, em Rm 1.1), o apóstolo
Paulo insinua: (1) que outrora ele tinha sido “escravo” de
Satanás; e: (2) que, tendo sido comprado por Cristo, agora ele era
escravo voluntario, preso ao Seu novo Senhor.
(Vine)
-
- Quando nos atemos ao significado literal da palavra, ela significa servo escravo. Mas, teologicamente e doutrinariamente, sabemos que a compra efetuada por Jesus (de nossa humanidade) no madeiro, foi justamente para não sermos servos dos homens.
- Vejamos: “Foste chamado sendo servo? Não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião. Porque o que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é liberto do Senhor; e da mesma maneira também o que é chamado sendo livre, servo é de Cristo. Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens.” (I Coríntios 7: 22-23)
-
- Ao perguntarmos o que é Filosofia, deparamos com um emaranhado de respostas, que não respondem de imediato a nossa questão sobre a possibilidade de uma Filosofia Cristã. Mas, quando vemos que Filósofo era aquele (Segundo Cícero) que se ocupava com o conhecimento das coisas divinas e humanas e ainda se preocupava com a origem e causas dos fatos, podemos incluir o estudo teológico como sendo um ramo do estudo de filosofia. O apóstolo Paulo, em seu discurso no Aerópago, discutiu filosofia e não teologia.
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- Quando lemos em Atos dos Apóstolos a passagem em que Paulo defende a Fé Cristã em contraponto aos Filósofos Epicuristas e Estoicistas, podemos inferir que a discussão foi eminentemente filosófica. (Continua)
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1Servo
de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões na cidade de São
joão del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de
Teologia da EETAD.
21784
– opúsculo de Kant: "Uma resposta à questão: o que é o
Iluminismo?", onde se encontra essa famosa
definição:"Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem
de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é
a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de
outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se
a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta
de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de
outrem. Sapere aude! [Ouse saber!] Tem coragem de fazer uso
de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento
[Aufklärung]" (KANT) Disponível em:
http://mudernidades.blogspot.com.br/2010/11/kant-aufklarung-esclarecimento.html
acesso em 14/07/2014
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