O CRISTIANISMO NO BERÇO DA FILOSOFIA: PAULO DISCURSA NO AREÓPAGO CONFRONTANDO EPICUREUS E ESTÓICOS.
O CRISTIANISMO NO BERÇO DA FILOSOFIA:
PAULO DISCURSA NO AREÓPAGO CONFRONTANDO EPICUREUS E ESTÓICOS.
Jonas Dias de Souza[1]
O
povo Grego estava acostumado a intensos debates em praça pública. Não era
incomum que as idéias fossem debatidas entre os que se encontravam na rua, isto
aliado à intensa curiosidade que o grego possuía para as novidades e a abertura
para novas formas de pensar, permitiu a Paulo um terreno fértil para a pregação
do evangelho. Abordamos este assunto no
artigo Sobre a plenitude dos tempos.
Sabemos que Paulo enfrentou duas correntes do
pensamento clássico grego: o Estoicismo e o Epicurismo. “E
alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendia, com ele.” (Atos 17.18). Eram duas correntes muito em voga na Grécia,
embora distintas. Chega então Paulo,
mostrando um caminho diferente, uma nova
perspectiva de ver o mundo partindo dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. A bíblia não traz na íntegra o discurso de
Paulo, sabemos que não se resumiu a poucas palavras por causa da estrutura do
discurso grego. E considerando que Lucas
foi o historiador, é provável que tenha colocado uma síntese das palavras
Paulinas em Atos.
O discurso filosófico possui uma estrutura que
em linhas gerais segue ou possui os seguintes componentes
ou roteiro:
1) Tese ou Proposição: Momento em que a idéia
fundamental é defendida pelo autor de um escrito ou por quem está discursando.
Coloca o ponto de vista em pauta para a discussão.
2) Argumentos: Nesta hora o argumento deve ser
eficiente, pois a argumentação é que garante a aceitação da idéia apresentada.
3) Premissas:
Se dá pela sustentação dos argumentos (razões) que dá sustentação a
conclusão. As razões sustentam os argumentos e fornecem a base para a
conclusão.
4) Conclusão: É a alegação final que fecha o discurso.
Em suma: o que dizer? Para quem dizer? Como
dizer? Sabemos pela leitura bíblica que os outros apóstolos não encontrariam
(baseando se na cultura e não na capacitação pelo Espírito Santo) a facilidade
que a erudição Paulina encontrou para sustentar vários discursos entre os
filósofos gregos. “De sorte que disputava
na sinagoga com os judeus e religiosos e, todos os dias na praça, com os que se
apresentavam”. (Atos 17.17). Tentemos imaginar cerca de Noventa dias de
debates diários que Paulo se envolveu. Podemos inferir o dobro de discurso se
atentarmos que Paulo discursava (debatia) em dois ambientes distintos, na
sinagoga e nas ruas, até que foi levado para o Aréopago. Não sabemos se foi
mais um julgamento, pois ao Aréopago cabia a fiscalização de novas religiões. Não
sabemos se os três meses que Paulo permaneceu na Grécia (Atos 20.3) foram
somente em Atenas. O fato é que tendo chamado a atenção dos gregos, foi
conduzido ao lugar mais importante para os filósofos: “E, tomando-o, o levaram ao
Aréopago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?”
(Atos 17.19)
Paulo
vê oportunidade para pregar sobre Jesus Crucificado e sobre a Ressurreição
diante do mais importante tribunal de Atenas. O que nós crentes atuais devemos
aprender, pregar a Cristo crucificado nos meios importantes, assim como Paulo
se encontrou neste tribunal que a história tem em alta conta diante da
importância que exercia para o povo
grego. Ocorre que o mesmo tribunal não aceitava de forma passiva os discursos,
as intervenções ocorriam e era necessário uma defesa argumentativa forte para
que tudo transcorresse normalmente.
Podemos ter um vislumbre da desvantagem de Paulo diante dos debatedores,
por ser considerado “um paroleiro”, sabemos de traduções que trazem “catador de
grãos”. “Uns diziam: Que quer dizer este
paroleiro? (Atos 17.18) . O paroleiro é o que conhecemos por tagarela.
Tagarela, spermologos;
strong 4961: Gíria ateniense para: 1) Um
pássaro que cata sementes; 2) homens que vivem ao redor do mercado, ganhando a
vida com o que cai dos carregamentos de mercadorias; 3) um tagarela, falador ou
alguém que espalha fofocas distorcendo as informações; 4) um pseudointelectual
que insiste em falar pomposamente. Infelizmente os superintelectuais no
Aréopago não foram capazes de enxergar em Paulo todos os ingredientes
necessários para ser um mensageiro da verdade.” (Bíblia de Estudo Plenitude, p.
1216)
Se
levarmos em conta que o significado de Filosofia é “amigo da sabedoria”, deixar
um paroleiro falar, seria uma mera questão de educação para com um estrangeiro.
Mas a curiosidade grega ou até mesmo a necessidade de verificar se esta nova
religião estava conforme as regras do estado precisava ser verificada. Ao atentarmos para o fato de que a doutrina
epicurista tinha o filósofo em total autonomia, chegando ao ponto de negar a
morte, apresentar um Cristo que morreu objetivamente para salvar o mundo e
ainda ressuscitou após três dias, era algo que devia ser feito com erudição. A
respeito da autonomia do filósofo epicurista, Gianfranco Morra, escreveu:
“ Os epicuristas elevam a tal ponto a autonomia do filósofo, que
chegam a negar a existência da morte. O raciocínio é o seguinte: “Quando
existimos, a morte não existe; quando há a morte, nós não existimos”. A própria
dor, por outro lado por outro, lado não deve causar preocupação e também diante
disso o filósofo é autônomo. A dor ou é leve ou intensa: se não é intensa, pode
ser facilmente suportada e nos habituamos a isso; se é forte, não pode durar
longamente: ou ela passa, ou passamos nós. Em todo caso o filósofo é feliz em
sua autonomia.” (Morra, 2001)
Paulo apresentava em contraponto à autonomia
epicurista a dependência a Cristo. Se dermos um salto no tempo, vemos ainda
hoje as pessoas tateando em busca de um “Deus Desconhecido”, “felizes” em sua
autonomia, ao passo que podiam estar felizes de fato nos braços do Pastor que
nos foi dado. O pensamento grego,
considerava a ideia de ressurreição, totalmente contrária a ideia de morte como
“libertação da alma da prisão do corpo.” O epicurista ao aceitar tudo que ocorre na vida como destino inevitável, é
apresentado ao Deus que pode mudar, moldar vidas. Este Cristo deve ser
apresentado hoje, um Cristo que transforma as vidas ruins em boas. Lamentavelmente, temos falhado em apresentar
(num contexto geral) este Cristo que transforma a amoralidade em moralidade,
através da salvação. Temos visto igrejas
colocando fardos pesados, em formas de condutas éticas e morais, quando em
verdade, ao permitir que Cristo haja no meio, a pauta será a verdadeira ética
cristã. Podemos inferir que os filósofos epicuristas ficaram chocados.
Assim como epicuristas, os estoicistas também
foram confrontados, ainda na esteira de Morra, vemos a respeito dos estóicos:
“A afirmação mais
rigorosa da autonomia da filosofia foi feita pela escola estóica. A base dessa
abordagem de absoluta auto-suficiência é o reconhecimento da total necessidade
e racionalidade de tudo quanto acontece. A concepção estóica é substancialmente
panteísta: Deus e o mundo são idênticos. Tudo aquilo que ocorre é querido por
Deus, antes, é Deus mesmo.” (Morra, 2001)
Encontraremos uma série de contrapontos no
Novo Testamento, mas devemos lembrar que naquela época não havia o que
conhecemos hoje por Novo Testamento, então o discurso de Paulo era baseado em
suas experiências pessoais. Acredita-se
que o fundador do estoicismo (Zenão de Cício) começou sua escola por volta de
300 a.C
Para
o crente deste século XXI, a importância
em conhecer tais formas de pensamentos filosóficos reside no fato de
que,
estoicismo, aristotelismo e epicurismo, exercem ainda uma profunda
influência em nossa forma moderna de pensar ocidental. O
estoicismo é o influenciador da semiótica moderna. Qual é estudo que
devemos fazer hoje? São justamente os fatos da vida social e sua
confrontação com o Cristianismo. Atualmente, em tempos de internete e
comunicação de massa, ritos e costumes, mitos, se confundem com a
Doutrina
Cristã autêntica. Precisamos de pregadores que (sustentados pelo
Espírito
Santo) se disponha a estudar e entender este fenômeno de uma igreja
formada por
estudantes (ou pessoas formadas) em escolas que ensinam as correntes de
pensamento grego embutidas em diversas disciplinas. O objetivo não é
para
fazermos guerra, mas é para que assim como Paulo, conhecer os nossos
interlocutores.
“Então,
Paulo, levantando-se no meio do Aréopago, disse: Senhores Atenienses! Em tudo
vos vejo acentuadamente religiosos; (...)” (Atos 17.22). Algumas traduções trazem “supersticiosos”, o
que reforça o caráter do grego em sua busca por algo que estava sempre além do
homem. Recorrendo à Bíblia de Estudos
Palavras-Chave, aprendemos que a vertente grega do vocábulo, é entendida como “deisidaimonesteros” ou mais religiosos que os outros. Os gregos possuíam
um temor aos deuses, e reconheciam este temor erigindo um altar ao “deus
desconhecido” como forma agradar algum que porventura não tivessem conhecimento
da existência. Vemos que Paulo não deixou se encantar pelas arte grega, mas
preocupou-se em não perder o foco da evangelização.
Quando
lemos a história da filosofia dissociada da história do cristianismo,
percebemos que a filosofia estoicista é de certa forma aceitável. Mas quando a
confrontamos com a Palavra de Deus, percebemos que esta filosofia é uma
tentação ao espírito. “O estóico esquece dos limites da criatura:
o seu panteísmo não lhe permite reconhecer a diferença ontológica entre homem e
Deus, de modo que é atribuída ao homem a capacidade de redenção.” (Morra, 2001)
A grandeza do homem é exaltada pela filosofia
estoicista, que não leva em conta a miserabilidade humana. Recorrendo a Paulo
em sua Carta aos Romanos, vemos “Miserável
homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte” (Romanos 7.24) . A
miséria humana do estóico e autonomia humana
do epicureu, é assumida conjuntamente pelo entendimento do desastre que o
pecado original provocou na humanidade. Trazemos a miséria do primeiro
Adão
enraizada na alma, e recebemos a grandeza do segundo Adão (Cristo)
através da
morte sacrificial realizada na cruz do calvário. Contudo, ao contrário
de epicureus
e estóicos, abrimos mão da escravatura obrigada da servidão filosófica,
para
nos tornarmos escravos voluntários (doulos) da Graça herdada através de
Jesus Cristo. Enquanto a filosofia estóica permite ao homem
o suicídio em casos de doença incurável e perda da liberdade, a Graça
redentora
permite somente a Deus (que é o autor da vida) tomá-la para si. Se o
estóico
não suporta a doença incurável e nem a perda da liberdade, podemos
dizer que a sua autonomia é uma falácia, que
em verdade não existe. Nesta linha de raciocínio, o Cristão escudado no
Senhor
Jesus, tem mais autonomia do que o estóico. A experiência da igreja é
rica em
perseguições que foram suportadas em Cristo, por exemplo o próprio
Paulo, e
também Silas, e muitos outros. O que
dizer então da experiência Paulina? “"E para que não me
ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne,
mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por
causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me
disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa
vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o
poder de Cristo.” (2
Coríntios 12.7-9) Não iremos especular sobre o que é isto. Podemos imaginar que um estóico talvez
cometeria o suicídio por causa disto.
A filosofia tateia em busca de Deus,
sem saber que ele já se revelou. Paulo mostra em seu discurso que Deus pode sim
ser encontrado, e ainda que, se somos semelhança dele, como o comparamos às
divindades esculpidas em ouro, prata e pedra conforme a imaginação humana. O Espírito Santo queria Paulo para falar aos
gregos e assim o conduziu. Mas o mesmo
Paulo erudito, era capaz de falar de forma simples às pessoas simples. O que Paulo expressou aos gregos, “para
que buscassem ao Senhor, se, porventura, tatenado, o pudessem achar, ainda que
não está longe de nós;” (Atos 17.27), também expressou em Listra, mas em
palavras mais simples, quando quiseram adorá-lo, confundindo-o com Mercúrio.
(Confiram Atos 14.15-17)
A nossa realidade não é diferente
(em termos de cultura) da realidade de Paulo.
Nesta sociedade hodierna, encontramos uma série de filosofias que buscam
a Deus tateando aqui e acolá, por isto é essencial pregações Cristocêntricas e
menos teológicas. Erudição para os eruditos e simplicidade para os simples.
Alguém poderá até argumentar que
esta pregação não foi um sucesso, pois houve poucas conversões, além de ser
assunto para outro texto, respondemos que cada alma é preciosa aos olhos de
Deus.
BIBLIOGRAFIA
Abbagnano Nicola Dicionário de Filosofia [Livro] / trad. Bosi Alfredo. - São
Paulo : Martins Fontes, 2000. - 4ª edição : Vol. Único : p.
1014.
Bíblia de Estudo
Plenitude. [Livro].
CPAD Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal [Livro]. -
São Paulo : [s.n.], 2004.
CPAD Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego
[Livro]. - Rio de Janeiro/RJ : CPAD, 2011.
Morra Gianfranco Filosofia Para todos [Livro] / trad. Marsola
Maurício Pagoto. - São Paulo : Paulus, 2001. - 2ª : Vol.
único : p. 145. - 85-349-1694-2.
[1] Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus
Missões na cidade de São João del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ.
Estudante de Teologia da EETAD.

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