Pontos de Contato, a heresia no culto cristão e o mercantilismo da fé

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Pontos de Contato, a heresia no culto cristão e o mercantilismo da fé.

Jonas Dias de Souza




Em 2017 a Reforma Protestante completou 500 anos.  Cinco séculos de uma “revolta” que colocou o Evangelho próximo da comunidade laica. Sabemos que até então, a missa era em latim e a leitura da Bíblia era destinada a poucos indivíduos. O que deixava o leigo num estado de ignorância.  Este facilitador propiciava uma atmosfera de exploração pela religião dominante, que em forma de indulgências e vendas de relíquias acumulava um tesouro incalculável. Era possível abrir as portas do purgatório com o tilintar das moedas no gasofilácio. O perdão era obtido a custas monetárias, o que de certa forma formava um ciclo de poder que fomentava a manutenção do povo na ignorância. Esta atmosfera de exploração revoltou Martinho Lutero, que de forma corajosa formula suas 95 teses. Pregá-las na porta do castelo de Wintemberg foi a maneira de dizer ao clero dominante que as coisas não estavam dentro de uma conformidade cristã.
O passo seguinte foi a tradução da Bíblia para uma língua popular. Empregamos o popular para dizer que, a possibilidade de leitura da Bíblia, saiu de um círculo concêntrico de uma casta sacerdotal para o círculo do povo. Martinho Lutero possibilitou ao povo descobrir que o “justo viverá da fé”.  Foi a leitura do livro de Romanos que de certa forma a acordou o monge de seu sonho dogmático. É esta fé, que  500 anos depois, retorna como objeto de exploração monetária, desta feita, apoiada pelas facilidades de comunicação e de transferência de dinheiro.  O que se necessita depois de 500 anos de Reforma Protestante, é de “Reforma Contra os Protestantes”. Antes que o texto seja acusado de sedição ou de ser politicamente incorreto, saibam que neste exato momento, uma pessoa está tendo sua fé explorada, adquirindo algum produto “milagroso”. Se na época de Lutero era possível comprar um pedaço da Cruz de Cristo ou um dedo de Santo Ambrósio, na época atual é possível comprar “sabão milagroso” e “vassoura ungida”, dentre outros milhares de artefatos ditos detentores de poder.
Qual a causa desta facilidade de exploração? Se Martinho Lutero possibilitou (ajudado pela invenção da prensa de Guttemberg) o acesso às Boas Novas do Evangelho, e na atualidade, consideradas as facilidades tecnológicas, este acesso continua ainda mais fácil, como explicar esta espoliação exacerbada dos fiéis?
Como explicar pseudo-pregadores que massageiam pênis e seios dos fiéis a guisa de fazê-los crescer? Caso fosse possível enumerar as muitas heresias existentes hoje no seio dos chamados evangélicos, compêndios seriam escritos.



A MENORIDADE DOS FIÉIS.
Alertando para o fato de utilizarmos o vocábulo ignorância fora de seu sentido pejorativo, recorreremos  ao que pensava Immannuel Kant ( 1724-1804 ) a respeito da menoridade dos homens. Em seu texto escrito em 1783, “Resposta à pergunta: O que é o esclarecimento?”, Kant  demonstrou sua preocupação com o fato de que alguns homens permanecessem na comodidade da menoridade. Esta permanência na menoridade, proporcionada pela  preguiça e pela covardia, deixava os homens menores a mercê de tutores alheios. O homem que permanece na menoridade se sujeita a ser tutelado por outros homens. Neste caso, por homens inescrupulosos que vivem de forma nababesca à custa da falta de esclarecimento dos fiéis.
É tão cômodo ser menor. Se possuo um livro que possui entendimento por mim, um diretor espiritual que possui consciência em meu lugar, um médico que decida acerca de meu regime, etc, não preciso eu mesmo esforçar-me. Não sou obrigado a refletir, se é suficiente pagar; outros se encarregarão por mim da aborrecida tarefa. (Kant)
            A preguiça intelectual que mantém os fiéis na menoridade está coadunando com a mensagem do profeta Oséias, “ O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento”.  Ainda na esteira de Kant, vemos que estes pseudo-pregadores do Evangelho não estão fazendo o uso privado da razão conforme deveriam, mas realizaram uma inversão, o uso público da razão foi colocado a serviço da igreja ou da denominação a que pertence. Como pastores, deveriam  pastorear de acordo com as verdades e os preceitos contidos na Bíblia, que não traz em suas passagens, a venda de “sabão em pó abençoado” ou de “vassouras ungidas” para varrer os maus espíritos de casa.
Denomino de uso privado aquele que se é autorizado a fazer de sua razão em um certo posto civil  ou em uma função da qual somos encarregados. (...) Do esmo modo, um padre está obrigado diante de seus catecúmenos e sua paróquia a fazer seu sermão de acordo com o símbolo da Igreja à qual ele serve; pois ele foi empregado sob essa condição.(Kant)
            Considerando que os pastores saem (em tese) da própria comunidade, teremos pastores ainda na menoridade, liderando fiéis também na menoridade, o que tende a se transformar num ininterrupto ciclo de exploradores e explorados tendo como alicerce a ignorância. A permanência na menoridade impede o contato dos fiéis com a Sã Doutrina ou com a Teologia. O que começa com um comprometimento sério com Jesus Cristo é derrubado pela ausência de doutrina cristã de acordo com a ortodoxia.
Por mais que os teólogos profissionais e pastores voltados para a teologia lamentem, é um fato que muitas pessoas comprometidas com Jesus Cristo e o cristianismo, como estilo de vida, não têm conhecimento sobre nada relacionado com o conhecimento formal doutrinário ou teológico. (Olson p. 22)
Ainda a   respeito da ignorância:
Segundo Dilley (2010), a tradição cristã em seu longo percurso proselitista deu origem a diferentes significados da palavra “ignorância”, todos com subtexto moral: primeiro ignorância é sinônimo de “inocência”, pessoa pura e moralmente louvável. Um segundo sentido é de ignorância como “falta de conhecimento” ou “inexperiência”, como a pessoa que está inconsciente de sua situação, mas que procura, tão logo tome consciência superá-la. Terceiro, o mais gravemente moral, envolve a ignorância como “recusa a conhecer”, a pessoa que intencionalmente procura não tomar conhecimento de alguma coisa (...) Sem a expectativa de encontrar interlocutores “inocentes” os pastores desta igreja dedicam-se a comunicar ostensivamente chaves de acesso a um “Deus que funciona” para pessoas “ignorantes da fé. (Tavolaro apud Mafra)
O CRISTIANISMO TRANSFORMADO.
O cristianismo na atualidade, principalmente pós teologia da prosperidade, foi transformado numa religião de clichês. A tomada de “partes que interessam” da Bíblia, faz com que a leitura encontre uma afirmação isolada de “tudo posso naquele que me fortalece”.  Esta passagem bíblica encontrada na Epístola Paulina dirigida aos Filipenses, foi interrompida em sua leitura contextualizada e transformada em um mantra capaz de fortificar o homem em todos os momentos. Contudo, quando, procuramos sair da menoridade e lemos a contextualização dos escritos vemos que, antes do vocábulo fortalece, Paulo enumera uma série de dificuldades pelas quais passou. “Sei estar abatido e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade.”  Somente após estas explicações, é que ele afirma que pode “tudo” naquele que fortalece, que é Cristo. A força de Cristo foi (segundo os exploradores da Fé) trocada pelos objetos com poderes que são ofertados por preços milionários aos fiéis.
O cristianismo está absorvendo cada vez conceitos doutrinários de outras religiões e perdendo sua singularidade, em parte por ausência de defensores da fé (apologetas) e em parte porque é interessante que o lucro se mantenha, mesmo que escorado em elementos estranhos á doutrina cristã. Segundo Roger Olson  (  ), há sociólogos da religião que afirmam inclusive que o cristianismo está tomando o caminho de uma religião popular.“Uma das características da religião popular é ausência de reflexão sobre as implicações intelectuais de experiências de revelação e a incapacidade de integrar essas experiências com outras esferas da vida.” (Olson p. 22)


Esta ausência de reflexão faz com que o dízimo (conceito cristão e bíblico) seja transformado em trízimo (conceito humano). Que o “sal da terra” no conceito espiritual do cristianismo, seja transformado no sal literal, colocado em saquinhos e vendidos aos fiéis para espantar uma variedade de sortilégios. O azeite símbolo do preenchimento do Espírito Santo (na Bíblia) sofra uma mutação para ser um talismã. O Cristianismo assim transformado, adota agora (segundo interesses financeiros) elementos das diversas religiões e como uma colcha de retalhos, espelha aquilo que o fiel  espera. Se é a volta de um amor que se perdeu, existe um perfume consagrado. Se é um emprego que se foi, um mergulho nas águas importadas do Rio Jordão ou umas pisadas nas terras vindas de Israel. Mas o conceito bíblico e cristão da Oração e do Jejum é deixado de lado, porque o que se busca é o milagre expresso. Na correria do dia-a-dia não há tempo para a leitura da Bíblia e uma análise reflexiva. É mais fácil endividar no Cartão de Crédito para que 300 pastores formem uma corrente de fé em meu nome.  No cristianismo de milagres a jato, o fiel esquece-se de que a Bíblia traz em seu bojo o ensinamento de que o Espírito Santo intercede por nós, porque não sabemos orar devidamente. Mas não saber orar, não implica em não ter que orar. Não implica em depositar sua fé num montinho de terra importado, e para ter um “contato místico” fazer um voto de vultosa soma em dinheiro.
É na oração que justamente o homem que ora, mostra que é totalmente humano. É das pessoas tidas como piedosas [ religiosas, crentes, espirituais] que brotam e rapidamente se sucedem os mais atrevidos saltos e as mais arrojadas pontes, [ visando a comunicação direta com Deus]. (Barth, 2003)
Não se vislumbra nestes cristianismos os princípios salutares das Cinco  Solas: Sola Scriptura;Solus Christus; Sola Gratia;Sola Fide e Soli deo Gloria. Neste período de exploração financeira da Fé, encontra-se de tudo, menos as características do verdadeiro Evangelho.  A Bíblia por exemplo, deixou de ser a autoridade final nas questões espirituais, para ser tão somente o supedâneo para que as formas de apropriação das finanças alheias mediante exploração da fé encontre um sustentáculo de autoridade. Perverteram as palavras encontradas na Epístola de Paulo a Timóteo.“Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” ( II Timóteo 3: 16-17)
              Este Neo-Cristianismo é uma mistura de animismo, panteísmo e “terrorismo”. Terrorismo porque o discurso utilizado para manter as rédeas curtas dos fiéis é nada mais que uma distorção das verdades bíblicas. Vende-se o risco de perder tudo caso não entre na ciranda financeira da denominação. Por isto encontramos a explicação para que um fiel compre um “carnê da cura” e se prive de uma vida com qualidade, “doando” para a denominação toda a sua aposentadoria, na vã esperança de ser curado de câncer. Não percebe que o câncer maior está destruindo a sua vida debaixo de uma falsa piedade religiosa.
A GUERRA NA MÍDIA: A EXPANSÃO DA EXPLORAÇÃO DA FÉ NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA.
Que a televisão é um ótimo mecanismo de venda não resta dúvidas. Que a fé se transformou em uma mercadoria já está provado desde a venda das relíquias. A junção de fé como mercadoria e avanços tecnológicos que propiciam a comunicação de massa, alavancou o mercado. Este fenômeno que começou na década de 70 com as grandes cruzadas televisivas, com o advento das novas tecnologias de informação ganhou o mundo.  O Brasil vivenciou a assunção de canais de televisão por uma elite cristã. O Brasil passa a exportar um proselitismo que causará um impacto em nível mundial.
O evangelismo televisivo e virtual forma uma nova classe de fiéis “ignorantes da fé”. Longe do convívio da comunidade congregacional, o indivíduo se liga a um grande rebanho virtual, podendo ligar e se desligar com mais facilidade. Seria uma forma de amenizar a culpa, esta liberalidade na compra de amuletos “sagrados”. É mais fácil comprar a “vassoura ungida” que dobrar os joelhos e cair em oração mostrando a Deus um coração contrito, conforme ensina a doutrina de acordo com a ortodoxia.
Dificilmente alguém sai das reuniões da igreja universal sem carregar algum pequeno objeto, uma miniatura-segundo o vernáculo dos especialistas religiosos iurdianos, estes são os “pontos de contato” como sal grosso, rosa ungida, água fluidificada, fitas e pulseiras, ramos de arruda (Campos, 1997; Gomes, 2004; Kramer, 2001). Segundo o Estatuto da IURD, o clero da igreja é levado a utilizar “objetos” em função do problema de “falta de conhecimento” de sua audiência. Pessoas “maduras na fé” conseguem entender que “o poder está no Senhor Jesus Cristo e na ação do Espírito Santo”, e essas pessoas conseguem acessar o cristianismo em sua total potencialidade, como uma religiosidade de abstração. No entanto, “pessoas imaturas na fé”, implicitamente, aquelas que mais precisam conhecer a mensagem cristã, são as que precisam de “pontos de contato”. Mafra, et all)
            Consideradas a facilidade propiciada pela televisão e os pagamentos virtuais (que atingem a vida financeira real) a aquisição de “pontos de contato” livra o fiel ignorante da responsabilidade de ler a Bíblia Sagrada. Alie-se a isto a produção dos programas que utilizam as músicas seculares (românticas) para mexer com as emoções dos telespectadores. Cenários bucólicos, com “gente de sucesso”, tomam o imaginário de uma vida real que exige luta.

Bibliografia

BARTH, Karl. Carta aos Romanos [Livro]. - São Paulo : Templus Editorial, 2003.
MAFRA,Clara ; SWATOWISKI,Cláudia; SAMPAIO, Camila .O projeto pastoral de Edir Macedo: Uma igreja benevolente para indivíduos ambiciosos?. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092012000100006 acesso em 04/08/2018
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas [Livro]. - São Paulo : Martins Fontes, 2000.
KANT, Immanuel. O que é o esclarecimento?. Disponível em: https://criticanarede.com/fil_iluminismo.html acesso em 04/08/2018
LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia [Livro]. - São Paulo : Martins Fontes, 1999. - 3ª ed : p. 1336.
Ol]LSON, Roger. História da Teologia Cristã [Livro].

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